sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A Manipulação da História no Ensino e nos Meios de Comunicação


Resenha: FERRO, Marc. A Manipulação da História no Ensino e nos Meios de Comunicação. Tradução de Wladimir Araujo. São Paulo: IBRASA. 1983. 310 p.


“Saiba o leitor que senti alegria e verdadeira paixão ao planejar e escrever esse livro. Que ele te ajude, amigo, como a mim, a compreender melhor o teu próximo.” 

Marc Ferro, Historiador Francês 

Fabio Antonio Costa 
Mestrando e Especializando pela PUC-SP 
fabioantoniocosta@hotmail.com 

 Produzida em uma época que a História e outras disciplinas estavam reformulando suas bases de pesquisa, 
a obra A Manipulação da História no Ensino e nos Meios de Comunicação, do historiador francês Marc 
Ferro , destaca-se por usar métodos de pesquisa na época pouco difundidos, como o cinema, uma 
especialidade de Ferro. 

 No prefácio, o autor destaca a imagem que possuímos de outros povos, sendo por ele considerado o 
que nos foi ensinado quando crianças na escola. Essa imagem foi estabelecida pelos poderes dominantes, 
como o Estado, a Igreja (católica e outras), o Partido e interesses privados (p. 11). A história então pode 
ser entendida como a história do ocidente, destacando-se alguns grandes descobrimentos, como o 
Humanismo, Reforma Protestante ou Modernismo. Segundo Ferro, “é necessário restaurar a verdade” (p. 14), 
embora o conceito de verdade em história seja muito discutível, não havendo um consenso acerca disso. 
São estudados os manuais didáticos e livros de história nos quatorze capítulos do livro: 

1. A História branca: Johannesbourg, a África do Sul, segundo Ferro, é considerada uma área de 
peregrinação, local dos Bôeres, povo que usava uma bíblia e o rifle contra o medo e solidão e após o 
Congresso de Viena, o colonizador bôer torna-se colonizado da Inglaterra (p. 28). Outros grupos, 
como os Bosquianos (considerados bárbaros) ganharam um tratamento parecido aos índios dos 
Estados Unidos, sendo fechados em reservas ou exterminados, os Bantos conheciam exatamente 
a natureza e sistema solar e os Xhosas que só migraram para a África do Sul depois do fim Monomotopa. 
O autor destaca que no país do extremo no continente africano, sobressaia a história branca perante 
a história negra. 

2. A História descolonizada: a África Negra são três as vertentes que direcionam o passado da África Negra; 
tradição oral, história ensinada pelo colonizador e por uma reavaliação geral. As três são construídas por grupos 
específicos, que moldam o conteúdo da história em conformidade aos interesses do poder, reduzido nos 
currículos e a contragosto de vários grupos. Destaca-se a figura de Chaka do reino Zulu, uma mistura de lenda 
e história (p. 35) que em seu exército utilizava de métodos espartanos na guerra e por algum motivo não 
comprovado, Chaka não deixou filhos e após sua morte o seu reino se afrouxou. Alguns reinos e impérios 
são destacados, como Gana, Mali (reino de Mansa Moussa), Songhar e Suahili. Segundo o estudo de 
Denise Bouche (1817-1860), somente os filhos dos franceses iam à escola e não se falavam dos gauleses, 
importantes personagens na história francesa. Destaca-se uma música do livro de Georges Hardy: 

“Para que a nossa África seja rica, Amigo, vamos trabalhar, trabalhar... Em vez de dormir ou conversar, vamos, Vamos limpar a terra. 
Antes de convidar parentes e vizinhos, Paguemos os impostos, saldemos as dívidas e coloquemos de lado uns sacos de grãos. 
Então, sim, poderemos cantar em voz bem alta... Salve, França, e glória ao teu nome, nós te amamos como à nossa mãe, porque é a ti 
que devemos o fim de todas as nossas misérias...”

 Sow Ndeye, estudante com 12 anos no momento da independência do Senegal, relata que na escola estudou 
personagens e o clima europeu, muito diferentes do seu país de origem. São destacados alguns pontos acerca 
do continente, como a África tropical ser considerada o berço da humanidade no 6º Congresso Pan Africano, 
na afirmação de Oumar Kane, que nos anos de 1950 e 1960 floresceu os movimentos de independência, 
a tendência a unificação e centralismo monárquico. Existe, segundo Ferro, comparações, como no caso do
Reino de Gana e o ocidente cristão ou o poema Herekeli, que pregava a conversão dos cristãos e pagãos 
ao Islã (p. 48), que diferente de outras religiões, aceita a poligamia. Segundo Ferro, “desde que se trate do islã, 
a mão do historiador põe-se a tremer” (p. 46). 

 3. Nota da leitura sobre uma variante em Trinidad, a reação exorcista, é analisada a história construída 
na América Central e especialmente em Trinidad e Tobago. Nesse pequeno país, a comunidade negra é a 
dominante e segundo o livro Our Heritage, as índias ocidentais são habitadas por muitos povos e é afirmado 
que os africanos são negros, embora os negros sejam apenas um dos vários grupos que habitam a África (p. 53). 
Nesse e em outros livros de história, são anuladas vários conflitos e conforme os interesses locais são 
explorados assuntos como o petróleo e a máquina, ligados a civilização ocidental, afirmando inclusive que eles dois poderiam tirar a ilha do subdesenvolvimento que se encontrava (p. 51). 

 4. Nas Índias, a História sem identidade, inicia-se com a afirmação que os invasores da Índia se adaptaram a 
ela. São vários os grupos que fazem suas versões da história da Índia; as lendas purificadas, o livro de Vedas, o 
conto de Rama e Sita, o livro de Buda e o Hinduísmo. Outros grupos forjam suas versões, como no conflito entre 
os arianos do norte versus os hindus do sul que “ficaram amigos” (p. 59), a bondade de Alexandre o Grande ao 
rei Porus da Índia, que era “mestra” inclusive da China nos impérios Mauryas, Guptas e Harsha. Contrario a isso,
Ferro afirma que o Camboja, Java e Sumatra foram tomados pela força (p. 63). Outros grupos, como os ingleses
constroem suas versões, como na comparação da Índia a uma mulher e no conto do macaco e dos dois gatos e 
encontrava-se na “infância”, “faltando a ela força física, disciplina, sentido de organização”, além de ela favorecer 
os muçulmanos. O autor explora as influências da Revolução Americana e Francesa e filósofos como Rousseau, 
a exaltação a Gandhi, a supremacia hindu frente aos muçulmanos e a pouca importância dada ao comunismo 
antes da independência da Índia. 


 5. História do Islã ou História dos Árabes, a história do islã (considerado um fenômeno recente) é 
baseada em uma seleção de fatos e acontecimentos nos fundamentos do alcorão e no profeta Maomé. 
A Idade Média, segundo Ferro, possuía uma intensa relação com o islã, embora ele ignore as Cruzadas, 
sendo que elas junto ao imperialismo (considerados insetos parasitas que sugam o sangue) fragilizaram muito 
o mundo árabe. Portugal é o primeiro a fazer contato com o mundo árabe, seguido da Espanha e França. 
Da formação do mundo árabe e islâmico, o conjunto Árabe - Iraque é considerado o primeiro reino (p. 79), 
ficando nítida no Iraque a identificação com os árabes, originada segundo o autor no califa Abd El Malik El 
Marwan, que adotou o árabe no estado árabe islâmico ao invés de grego, copta ou persa (p. 84). 
A história árabe e islâmica possui os fundamentos do Ijara, sendo considerada uma licença para matar (p. 82)
e segundo os manuais de história estudadas pelo autor, pouco ou nada consta sobre os Abássidas nem do 
massacre dos Omíadas. 

 6. Variante Persa (e Turca); no cenário árabe destaca-se o Irã, que resistiu ao Império Romano e se distancia 
do mundo árabe, merecendo destaque por Ferro o confronto com os árabes pela língua persa, que no Irã desde 
1501 a maioria é Xiita pela dinastia dos Safávidas. O Egito, às vezes considerado líder do mundo árabe, é ao lado 
do Irã, de população “ariana” (p. 105). Ferro destaca também os Turcos, um povo muito orgulhoso por ter dominado
os árabes, ameaçado a cristandade e pelos seus cinco séculos de império, os Hunos por só se conhecer sua 
história pela história dos inimigos (p. 119), o Império Otomano, considerado multinacional e tolerante e o reino de 
Harun Al Rashid e seu famoso conto das Mil e uma noites. 

 7. Do Cristo Rei a pátria e ao Estado: A História vista da Europa, Ferro afirma que a história produzida pelos
historiadores não é a única história (p. 121), contrariamente a história contada na Europa, que possuía um elo com 
Roma até pelo menos o século. Na Espanha as festas celibéricas são a memória popular espontânea que 
acontece em vários pontos do reino espanhol, destacando-se Castela, acima de Catalunha, País Basco e 
Galícia (p. 124). O autor destaca alguns seguimentos em que se destacam a história de cada país; na Espanha 
são as festas, na Inglaterra o teatro e romance e na Alemanha o cinema, que após a derrota do nazismo 
a história entrou em um tabu, não apresentando ruptura entre os anos de 1933 a 1945 (p. 127). Hitler enfatizava as 
linhas de evolução e Lutero afirmava que a Reforma Protestante era a primeira revolução dirigida contra a opressão 
do estrangeiro de Roma (p. 128). Os Ingleses criam os primeiros campos de concentração na guerra com os 
bôeres. O ensino de história na França segundo o autor é “assassinada”, devido à concorrência que ela sofre 
como pelos meios de comunicação, por fim, Ferro relata a boa experiência que teve ao ver sua filha Isabelle na 
escola na região de Ampére, relatada por ele com uma boa aula (p. 140). 

 8. Imagens e variantes da História da URSS, na famosa frase de Nikita Krushev, “os historiadores são 
pessoas perigosas; são capazes de desarrumar tudo. Devem ser dirigidos” (1956), indica como é direcionada 
a história russa. Os varegues que fundaram o estado russo não aparecem nos livros de história, mesmo 
sabendo que os primeiros príncipes russos eram varegues. Tal negação segundo o autor deve-se ao fato de 
a Rússia existir a afirmação do desenvolvimento vir de dentro (p. 158). Na Revolução Russa, os bolcheviques 
assumem o poder e história em 1917, e no meio do século, o historiador da Rússia engrandece as instituições 
soviéticas, esconde personagens como Trotsky, Stalin e os horrores da coletivização forçada. Na história soviética,
era comum a convicção a derrota do capitalismo (p. 153), embora o próprio imperialismo russo (que tinha muitas
variações em sua história) fosse dependente do capitalismo ocidental. A cidade de Moscou era um “açambarcador” 
da terra russa e países como Bielo-Rússia e Ucrânia, que se entendia por serem povos irmãos (p. 157). 
No período da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos e Inglaterra desconfiavam dos soviéticos (p. 172); o 
primeiro acreditava que os soviéticos não poderiam vencer a guerra enquanto os segundos queriam que os soviéticos
lutassem contra os japoneses. A União Soviética ajudava a praticamente todos, inclusive as colônias e inicialmente foi contra o desmembramento da Alemanha nazista. 

 9. A História, Salvaguarda da identidade nacional da Armênia, destaca-se a história do pequeno país do
leste europeu. No século três a Armênia se torna a primeira nação cristã, misturando a religião a sua identidade 
nacional. Ela é também uma nação de comerciantes, um estado vassalo entre dois impérios. Os armênios são ligados
ao seu pedaço de terra (p. 202), sendo que o autor destaca que desde o século cinco eles tentam conservar sua história. Fato difícil, pois segundo Ferro, essa pequena nação sempre correu riscos e invasões, como no desejo dos turcos de eliminá-la (p. 199),
a entrada da cultura grega pelo imperador Alexandre e a influência soviética na era contemporânea da Armênia, 
que dava a mesma história de áreas de seu domínio, como a Geórgia ou Azerbaijão (p. 179). 

 10. A História vista de perfil: a Polônia. A partir da dinastia dos Piast, considerado um embrião, funda-se 
o estado polonês. Em sua história coexistem várias versões, como a mostrada nos filmes Karnal (1983) e 
No tempo dos Suecos, a matriz marxista na história oficial (que deveria formar bons cidadãos) e a batalha 
de Grunewald, no qual ocorre a derrota dos cavaleiros teutônicos, simbolizando a vitória polonesa (conhecidos
também como povos eslavos) contra os alemães. Nos livros de história da Polônia, são destacados personagens 
como o cientista polonês Nicolau Copérnico (p. 211). Pouco se explora a parte leste da Polônia, devido à ocupação 
soviética (p. 209). O autor destaca a teoria dos dois inimigos (nazistas e soviéticos) e também é ressaltada 
a ocidentalização da Polônia pelas influências da Igreja e de Roma. 11. Nota sobre as incertezas da História da 
China. Nos manuais de história do império chinês, afirma-se que ela criou sua própria cultura (p. 222), afirmado 
como nas ideias do “salto para frente”, assim como na invenção da seda, papel, bussola etc. O ensino de história 
é concentrado apenas no território chinês, isso se considerando a difícil unificação desses estudos em um país 
que teve mais de quatro décadas de guerra civil. Desconsidera-se, por exemplo, as diferenças entre Taipei e a 
China e os mais de dois milênios de duração do feudalismo na China. 

 12. A História do Japão: um código ou uma ideologia? Os monarcas japoneses, segundo aponta Ferro, 
eram descendentes dos deuses, que reforça a ideia que o Japão é criado, governado e protegido pelos 
deuses (p. 256), junto com a China é considerado como o país do arroz, protetor da Ásia, em sua antiga história.
 No século quinze, destaca-se a época dos grandes guerreiros (posteriormente explorado pelo cinema). 
O Estado-Família, que segundo Ferro só acontecia no Japão, é baseada na ideia da nação ser uma imensa família,
 onde o imperador é o pai. Até o começo da década de 1940, havia poucos livros da história do Japão e nessa 
época era comum a admiração a Alemanha (nazista) e criticas a cidades como Xangai, Londres e Cairo. 
Um bonito poema (p. 243), do ministro da direita japonesa, Michizanê, é apresentado, na sua retirada do partido: 
Quando soprar o vento, Flores de ameixeira, 
vocês se lembrarão? 
Mesmo se eu não estiver, 
Não se esqueçam da primavera. 

13. A História “branca” em demolição: os Estados Unidos. O autor aponta como os Estados Unidos ignoram o 
mundo exterior (o primeiro livro de história foi lançado em 1823) e direcionam sua própria história, como ao afirma-
rem que o catolicismo e o espanhol serem o fracasso da América. A divisão da história estadunidense era dividi-
da em cinco períodos e pouco se explorava eventos, como a Guerra da Secessão (visando unir a nação). Os meios 
de comunicação possuem grande influência, como o filme Nascimento de uma nação (1915), E o vento levou 
(1939), pois reforçam a ideia do “bom negro”, sempre representado como servidor doméstico. A criação da décima 
terceira emenda tornava o negro um não escravo, embora continuasse a ser um não cidadão, havia, portanto, 
separação e não igualdade (p. 273). Nessa conjuntura, destaca-se o papel de Martim Luther King (atuante e líder 
do movimento de massa de boicote) e os revolucionários Panteras Negras. Outros grupos também são estereo
tipados, como a associação entre os comunistas ao personagem Robin Wood, o irlandês emigrado (chamado de 
Paddy) sempre representado como briguento e barulhento e sua “rivalidade” com os negros pelos empregos.  

14. Nota e leitura sobre a História “proibida”, Mexicanos-Americanos, aborígenes da Austrália. A visão 
dos vencidos, segundo Ferro, foi desenvolvida por Nathan Wachtel com os índios do Peru (p. 282). 
O desaparecimento de quase três quartos dos índios, não possui menção nos livros de história dos Estados 
Unidos. A própria história mexicana era sempre ligada com a estadunidense, negando a história dos povos chicanos 
(chamados de méxico-americanos ou Raza). Ferro destaca a história dos índios dos Estados Unidos (p. 285): 

(...) No começo tudo estava na escuridão. Os espíritos haviam criado as pessoas e os rios, as cavernas, os rochedos e todas as coisas que 
vivem. Deram a cada clã sua terra, seu totem, seus sonhos. (...) Nem as pessoas, nem os pássaros, nem os animais podiam ver porque não 
existia luz e cada um ficava onde estivesse, sem se mover. Um dia, todos os animais se reuniram e disseram: “É preciso fazer alguma 
coisa para que a luz apareça”. Conversaram, conversaram, mas não aconteceu nada. Até que enfim a rã disse que poderia fazer vir o sol graças 
a um cântico mágico. (...) 

 Os índios australianos ou aborígenes possuem uma situação em paralelo com os nativos do México e Estados 
Unidos, iniciando o contato com a Europa nas viagens de James Cook em 1770. Segundo Julio Verne, os 
aborígenes da Austrália possuem sua história, conservada pela tradição oral (p. 284). Segundo os relatos dos 
aborígenes australianos, os grandes navios (dos colonizadores ingleses) eram “grandes pássaros que flutuavam 
no mar”,“ensinavam a palavra de Deus” e em seus relatos, suas “crianças iam à escola”, além de nos mesmo 
relatos os aborígenes afirmavam que “nossas pegadas serão desfeitas pelo vento”

 Na conclusão, Marc Ferro que o espelho quebrou pela miragem da História, afirma que a memória das sociedades
pode ser considerada como uma segunda fonte, o marxismo que pode ser usado pelos interesses e manipulações 
dos modos de produção, como nas variantes da União Soviética e China e a contribuição dos Annales com as novas 
bases de pesquisa.  

Em suma, uma importante obra que transita por campos como a história, geografia e política, buscando analisar 
os conjuntos e modelos de história que são explorados por determinados grupos específicos, que proporcionam 
uma visão da história que se não traz na sua essência a cientificidade e seriedade necessárias, trazem uma 
história que ao valorizar determinados pontos de vista, e que Marc Ferro, em sua conhecida obra, explora brilhantemente.

O QUE É HISTÓRIA CULTURAL? - Peter Burke

(Resumo ampliado: Isabel Pacheco)

Objetivo do livro: Explicar a redescoberta da História da Cultural e discutir, afinal o que é
História Cultural?

Introdução - O Livro de Peter Burke trata da redescoberta e importância da História Cultural a
partir dos anos de 1970. A História Cultural dedica-se as diferenças, debates e conflitos das
tradições compartilhadas em culturas inteiras. Depois da guerra fria os conflitos se norteiam para
um choque de civilizações , isso segundo Samuel P. Huntington (p. 8). Mas afinal o que é
História Cultural? Para o alemão Karl Lumprecht (1897): as fronteiras são cada vez mais difíceis
de definir. Uma solução seria o método mais isso também é difícil, mesmo utilizando um foco: a
busca de significados, práticas, representações, símbolos; uma linguagem: descritiva narrativa
pouco quantitativa. A saída para Jean Paul Sartre é dizer que a História Cultural não tem
essência, mas tem história própria assumida por americanos e alemães, embora os ingleses
tenham resistido e os franceses preferido a história das civilizações, mentalidade, imaginário, e
hoje já haja menos resistência:

Cap. 1 - A grande tradição (p. 15). Para fins didáticos pode-se dividir as fases da HC em:
História Clássica de 1800 a 1950 - História Social da Arte de 1930 e 1940 - redescoberta da
História Cultural Popular em 1950 e 1960 e a Nova História Cultural a partir dos anos 70. No
período da História das culturas clássicas, desenvolve-se na Alemanha uma unidade mais
cultural que política a ênfase nos estudos do espírito da época ou história de mente
estudando temas como símbolos, sentimentos e formas. Max Weber (sociológico, 1904) estuda a
ética e o espírito do capitalismo com o objetivo de dar uma explicação cultural a mudança
econômica. Norbert Elias (sociólogo, 1939) se ocupa do processo civilizador com a história do
modo á mesa , e enquanto Aby Warburg (não acadêmico) estuda os detalhes sobre o
Renascimento, Ernst Gombrich (1960) a relação entre verdade e estereótipos formula e
experiência . Em 1930 há uma fuga dos cientistas para Londres e EUA onde a palavra
civilização era mais usada que cultura e em 1939 Perry Miller (EUA) estuda História das ideias.

Em Londres e EUA com a diáspora dos intelectuais alemães, desperta-se para os estudos sobre a
relação de cultura e sociedade (p. 26), e Arnold Hauser (marxista) dedica-se a história social da
arte (1951). Em 1960 a História Popular faz a descoberta do povo e Eric Hobsbawm (com o
pseudônimo "Francis Newton") escreve a história social do jazz. Em 1963 é A formação da
classe operária inglesa de Edward Thompson que marca o lugar da cultura popular para explicar
as mudanças econômicas e influencia efetivamente os historiadores e estudiosos da história
cultural (p. 30). Somam-se a isto as publicações dos Annales de Jacques le Goff e Jean-Claude
Schmitt.
As preocupações da história da cultura popular são explicadas pela ausência destas nos estudos
da História cultural e é Stuart Hall do Centro dos Estudos Culturais Contemporâneos que lança
criticas a ênfase na alta cultura. Enfim, será a história cultural e a cultura popular que levantará
problemas que não se podia mais escamotear.


Cap. 2- Problemas da história cultural (p. 32) - As fontes e seu tratamento, os métodos e as
conclusões que tem confiabilidade relativa, pois são produzidas e selecionadas com alto grau de
condicionamento sendo assim, acusada de impressionista.
As possíveis soluções: 1) estudo do serial com a análise de uma série cronológica de documentos
(longo tempo); 2) para os textos: análise de conteúdo - freqüência de dado tema, palavra,
relações, associações - mas tem problemas de significativos diferentes, mesmo para os que
praticam a "análise do discurso".
As criticas dos marxistas é que a História e cultura "ficam no ar", falta relação com a base
econômica ou social, subestima-se a homogeneidade cultural e os conflitos de culturais distintas
numa mesma sociedade. Crítica dos marxistas culturais por seus colegas por colocar cultura na
base: a) chamados de culturalistas, pois colocam a cultura como superestrutura ao contrário dos
economicistas (p. 37).

Antonio Gramsci: a classe dominante não controla só pela economia, também por suas idéias,
mas como não colocar a cultura como hegemônica? Resposta: estudar as tradições culturais e a
cultura erudita e popular como subculturas, mas tudo se modificam e isso é problemático (p.40)
Como distinguí-las, isso nem sempre é definido. Georges Duby (historiador francês) propõe um
movimento para cima e para baixo, dos objetos e práticas culturais (p. 42). Afinal o que e
cultura? Modificações e ampliações desde o início do séc. XX o todo complexo que inclui
conhecimento, crença... (Ler p. 43).


Cap. 3- A vez da antropologia histórica (1960-90) A aproximação da antropologia dos
historiadores da cultura e da econômica destacam a importância dos valores para explica a
produção acumulação e consumo; em verdade todas as áreas passam a considerar a questão
cultural. Os historiadores foram influenciados por este conceito no plural: culturas (p. 46).
Jonh Elliott (historiador político) assim como Roger Charttier renderam-se a nova história
cultural e as explicações culturais entram para discussão de todos os temas. É a hora da
antropologia história, até a URSS com Aaron Gurevich voltou - se para antropologia e mesmo
Claude Lévi-Strauss com seu estruturalismo estuda os elementos do sistema cultural ou social.
Geertz amplia o termo cultura (p.52) e influencia a muitos como Robert Darnton em o Massacre
dos Gatos (1984) que narra acontecimentos em Paris usados para entender as relações sociais da
época de 1730 com sua interpretação dos significados e dramas sociais em oposição a função
social dos costumes (p. 54). Nesse rol da história cultural do final do século XX ainda tem: Le
Roy, Daniel Roche, Lynn Hunt, Carlo Ginzburg que vão estudar cultura e sociedade sem reduzir
uma apenas a reflexo da outra.

Ainda na década de 1970 desenvolve-se a discussão entre macro-história e micro-história, esta
última como reação às explicações das narrativas grandiosas e generalizações dos processos da
"civilização ocidental". Além de ser reação à globalização em favor da cultura regional e local, a
exemplo de Le Roy Montaillou - história de uma aldeia de pireneus e Ginsburg em O queijo e
os vermes história de Menocchio, homem do povo suspeito de heresia, e sua visão instigante
do mundo. Da aldeia ou do indivíduo, a micro-história chamou atenção para especificidades
locais, mas não se estabeleceu de forma efetiva. Nesse mesmo bojo estão os estudos sobre a
história das mulheres (p.67).


Cap. 4- Um novo paradigma? A Nova História Cultural (NHC) é hoje um novo paradigma de
pesquisa e sua ascensão é conhecida como teoria cultural . A teoria cultural tem seu reforço em
teóricos como: Jurgen Habermas, Mikhail Baktin, Norbert Elias, Michel Foucault, Pierre
Bourdieu. (p.71-76). Vejamos as variedades da NHC: 1) de Mikhail Baktin - conceitos de
carnavalização e subversão penetração da alta cultura pela baixa e as muitas vozes de um
texto polifonia . 2) de Norbert Elias os conceitos de processo civilizador , embora criticado,
foi usado nas pesquisas dos historiadores. 3) de Michel Foucault conceitos dos contrários:
progresso e evolução , pensou as descontinuidades culturais e rupturas e a idéia de invenção
da cultura , de redes de idéias e pensamentos de dado período, bem como as práticas no
nível microfisica do poder . 4) de Pierre Bourdieu - idéia de reprodução cultural teoria da
prática , de habitus que é diferente de regras, emprego de bens, produção e capital ligado à cultura e a teoria da estratégia de distinção cultural para afirmar a identidade social.
Outros paradigmas da NHC: a) estudo das Práticas - a exemplo das práticas religiosas diferentes
da teologia; da fala diferente da lingüística; do experimento diferente da teoria e graças a isto
profissionalizou-se muitos temas como: esportes, maneiras a mesa, consumo, fala, viagem,
leitura etc (p.78); b) estudos das Representações - a construção do imaginário social, reflexo das
estruturas sociais e a criação das idéias e das representações da natureza, da nação, do outro
sobre a mesma realidade (p. 84); c) A História da memória - outra forma de NHC e a história
da memória a reação aceleração das transformações sociais que ameaçam a identidade, embora
saiba-se que as memórias serão sempre destorcidas e contaminadas pela cultura, por grupos
diferentes, por momentos diferentes (p.88); d) o estudo da cultura material - os estudos dos
objetos para percepção de mudanças e relações sócio-culturais com os temas sobre: alimentos,
vestuários, habitação, como formas de identificação cultural, posição social e representação dos
grupos em dado tempo e de como são a casa, a gastronomia, a cidade, os prédios e suas funções,
são temas que cada vez mais do interesse dos historiadores (p. 90); e) Outro domínio da NHC é a
história do corpo - identificação dos elementos culturais nos aspectos físicos como a carga simbólica dos gestos, higiene, etc., tidos como insignificantes, mas suas diferenças tem seus
significados sim e aqui, aliado a história de gênero e a história do corpo, mantém o interesse para
superação da dicotomia mente e corpo (p. 94).
Assim, a revolução na história cultural (NHC) desenvolveu-se a partir da antropologia história e
suas principais figuras são: Natalie Davis, Jaques Le Goff e Keith Thomas e embora criticada, os
pressupostos teóricos da NHC e das representações coletivas como construções culturais da
realidade, mantêm-se em sua ênfase (p.97).


Cap 5. Da representação à construção (p. 99) Há um deslocamento da história cultural para a
história cultural da sociedade e para construção da realidade criada, onde a linguagem já não é
tanto o reflexo o objeto e as histórias têm uma variedade tão diversa quanto os pontos de vista
escolhidos: vista de baixo a visão dos colonizados a visão dos derrotados classes
subalternas das mulheres etc. É a invenção da realidade e o fim do determinismo.
E sobre as variáveis desse construtivismo pode-se ver: a) A reutilização de Michel de Certeau
que estudou as práticas das pessoas comuns, sua criatividade e sua inventividade nas
apropriações como táticas de manobras no consumo das idéias e objetos (p.102); b) A
invenção da invenção como sendo a construção - imaginação , mas, se Foucault e Certeau
estão certos sobre construção cultural, então toda história é cultural e tudo seria uma invenção:
nações, regiões, etc; c) as novas construções: o passado, segundo White, seria uma construção de enredo dada a visão do historiador: classe, gênero, casta, tribo e até etnia aparecem como
termos cada vez mais flexível e negociável (p.106).
A exemplo do termo classe , é cada vez menos uma categoria objetiva e torna-se um construto
cultural, histórico ou discursivo. Como gênero: masculino e feminino são visões diferentes a
depender do grupo e as distinções de masculinidade e feminilidade como modificadas
historicamente; d) outra variável do construtivismo a construção das comunidades que tem seu
marco com o livro Comunidades Imaginadas de Benedict Anderson e estuda a influência da
cultura na política, a chamada cultura do nacionalismo e da imaginação para as novas
comunidades (p.110). Também há o conceito de invenção da tradição de Hobsbawm que
afirma ser muitas tradições, dita como antigas e são recentes e inventadas (caso da Inglaterra e
seus rituais reais). Embora não determinante, as tradições podem ser adaptadas ou relidas a
exemplo das tradições nacionais.

Sobre a construção da monarquia como na construção da nacionalidade são usadas as
festividades, coroações, casamentos, funerais, procissões religiosas, paradas militares para
afirmações de unidade nacional, com feito na Rússia e Japão (p.113).
Em Fabricação do Rei , Burke analisa os rituais teatrais do rei Luiz XIV, do seu cotidiano
usado para difundir uma mensagem ideal de poder ou acessibilidade do rei e uma imagem
pública do rei, uma performance de sua representação nas diversas situações.
A construção de identidades individual desperta também interesse à medida que representa um
eu forjado no coletivo, além das biografias como construção de identidade para si mesmas. E a
chamada virada performativa e modelo dramatúrgico. Fala-se de performance de consensos,
das festividades, performance de nacionalismo, da história ou da memória, performance da
linguagem, da metáfora que não só expressa, mas ajuda a criar a identidade, ainda e performance
como o contrário de regras culturais sendo os improvisos de recriação e de conflito dos
significados. Igualmente a ascensão do ocasionalismo - idéia de distanciamento das regras fixas,
respostas flexíveis as lógicas sociais a exemplo do tipo de linguagem ou gesto para cada tema, cargo ou ocasião (p.125).
Há também o conceito de desconstrução a categoria de que em cada tempo os historiadores
constroem sua projeção de valores sobre o do passado. A chamada mito-história como a
invenção da América construção de um continente (p.127).
Então o construtivismo é antagônico a visão simplista da identidade, embora crie problemas cuja
solução ainda esta longe de ter respostas para questões como: que restrições se constroem? A
partir de que? Ou seja, há uma criação contínua da cultura a partir de elementos velhos e
novos?


Cap. 6- Além da virada cultural? A nova história e a NHC já teve produção inovadora,
declinou nos anos 90 e agora se consolida e mesmo mediante sérias criticas de tentativas de
reaproximação do tradicional ou ser radical. Uma coisa parece certa: não se poderá retroceder no
tempo e prever as tendências de expansão ou retração, não é seguro. O Retorno a Burckhardt e
sua história cultural tradicional ainda persiste nos estudos da alta cultura, mesmo com o ainda
entusiasmo pela cultura popular que também coexistirá. Os deslocamentos e ênfases da NHC
acontecem a exemplo de O queijo e os vermes de Ginzburg que foi contribuição importante
para história cultural.
Outras extensões da NHC são os estudos da história cultural da política, da violência e as
emoções. A cultura e a política estão presentes em muitas produções sobre os simbolismos das
monarquias e governos nacionalistas (Vargas no Brasil é exemplo). É a chamada cultura
política de Lynn Hunt que trata da Revolução Francesa e seus comportamentos políticos, além
Thompson, Levi Strauss, Foucault e Derrida que se dedicaram ao tema. Temos, também, Shahid
Amim sobre a imagem de Gandi na consciência camponesa (p. 134).

O movimento de formação dos grupos de estudos dos subalternos na Índia e depois na América
Latina, Irlanda, serve de exemplo da expansão da NHC, além de ter ainda para ser desenvolvidos
temas como mídia, noticias, etc.
Quanto a cultura da violência, trata da guerra como culturalmente construídas, e seus efeitos na
própria cultura mais que o determinismo militar. A violência hoje chama atenção para seus
simbolismos, seus participantes e ideologias religiosas ou não, seus tumultos coletivos como
rituais de limpeza e purificação da comunidade. Igualmente sobre a cultura das emoções, os
historiadores da NHC se despertam para o espírito das épocas e a história das emoções, das
lágrimas, do amor, da inveja, da crueldade, do choro, do medo, temas inconcebíveis antes de
1980. Mas estudar a mudança no estilo emocional dos EUA, a psicologia das emoções, como
uma virada performática - necessita credenciar-se historicamente - fugindo da especulação.
Paralelo a isto vem a história cultural da percepção, visão, olhar, do som, da música enfim dos
sentidos, a exemplo de Gilberto Freyre em Casa Grande e Senzala quando descreve os adores
dos quartos, Alain Corbim com Sabores e odores (1986) e Esteja a Gosto de Simões (2004).

Fala-se de uma vingança da história social como reação à expansão da NHC sugerindo-se que
ela foi longe demais, que tem problema de subjetividade, de definição, de método e
fragmentação, além dos limites próprios do construtivismo. Conflitua-se a História Social X
História Cultural e um gênero híbrido Sociocultural tende aparecer, embora o autor defenda a
preservação do termo cultural para os fenômenos e social para sua história (p.146). De
qualquer forma há problemas na relação entre cultura e sociedade e não se pode perder de vista as estruturas políticas e econômicas. Como a Nova História a NHC se ampliou. Novos objetos,
novos problemas, novas abordagens, novas fontes, mas tudo carece de definir métodos: se
observação, quantitativos ou não. A fragmentação é outra questão da cultura como base de
conflitos dos grupos sociais ou de indivíduos, e se o estudo desses grupos pode sustentar
conclusões gerais. Será isso permitido ao historiador, como fez Darnton em Massacre dos
gatos (p.150).
As fronteiras e encontro. Há uma tentativa de romper á fragmentação com o conceito de
fronteira cultural - a questão é de onde se olha cada área cultural , como fazer as distinções,
como tratar os grupos fluidos entre estas fronteiras e as zonas de contrato convivência de
opostos cultura híbrida . Uma saída é tratar como encontros culturais a exemplo do que se
usou para as comemorações dos 500 anos do descobrimento da América - dando-se ênfase a
visão dos vencidos na adaptação dos dominadores ou fazendo-se a tradução cultural, etc (p.
151).

A Narrativa na História cultural: antes ligada à visão tradicional, a narrativa volta para dar voz as
pessoas comuns, histórias de vida, narrativas culturais sua estruturas e versões que infere sobre a
percepção do leitor. O desafio é fazer isto sem dar a história um enredo triunfalista e enfatizar a
crítica e o conflito de visões e de sentido de cada narrativa (p.157).


Conclusão: Segundo o autor, em sentido preciso não é possível concluir este livro. Considera-se
então que: - A NHC pode está chegando ao seu fim; mas a trajetória da história cultural ainda
esta em progresso. - Os problemas continuam sem soluções e novos surgirão. - Historiadores
culturais e sociais ampliam seus territórios. - Não há uma defesa de que a história cultural é a
melhor forma de história, mas necessárias são as suas contribuições. As reações são fortes, mas
precisa-se garantir seus ganhos. - Qualquer que seja os resultados não se pode voltar a pura visão
positivista dos documentos históricos de uma compreensão literal onde não se destacam os
simbolismo (p.164).



Posfácio: Sobre a História Cultural no século XXI: no fim da publicação deste livro houve
várias publicações em HC e se constatou dez introduções ao assunto. Em 2004 o Social History
lançou a revista Cultural and Social History. Em 2007 fundou-se a Society for Cultural History,
mas estes movimentos não são uniformes e sim, irregulares. Há resistências em vários países,
mas nos EUA floresce a história cultural de tudo: do corpo, das idéias, da identidade nacional, da
limpeza, café, clima, pêlos, memória coletiva, símbolos nacionais, etc. Uma série de
comunidades imaginadas proliferou em várias nações. Desenvolve-se um hibridismo entre história cultural e intelectual (das idéias) os debates culturais prosseguem as hibridizações e
circularidades culturais (p.169). São alvos de produções ao lado de estudos sobre tradução
cultural tão útil aos historiadores.
Vizinhos da HC - A história cultural não é monopólio dos historiadores. É multidisciplinar, por
isso é tão difícil dizer o que é história cultural. As invasões de fronteira e território são comuns
com a história literária, da arte e antropologia, tomando emprestados destes seus conceitos
(p.170). Também da sociologia, folclore, geografia, arqueologia, ecologia etc. Além disso, a HC
se aproximar dos conceitos de performance social , construção cultural , tradição ,
herança , construção cultural dos espaços , antropologia cultural e arqueologia cultural ,
esta última não seria outra coisa se não cultural. Como projeção, até a ecologia se aproxima da
HC (p. 171). O movimento dos estudos culturais segue, não sem ameaças de serem engolidos
por estudos gerados a partir dele com o estudo da memória - com crítica de serem excludentes
ao estudar apenas a alta cultura ou a popular.

Põe-se a cultura em questão e a HC nasce do conflito da guerra da cultura e da rejeição a
cultura do homem brancos mortos em contraponto aos afros americanos e do estudo das
mulheres na história. Segue-se, assim, o embate sobre o multiculturalismo, termo que pressupõe
diversas culturas em um mesmo espaço, incentivadas a conservar suas identidades. Debate longe
de se definir a exemplo das mulheres negras obrigadas a usar tranças e as louras proibidas de
fazê-lo (p.178). As questões são: onde estão as fronteiras culturais e o que é autencidade
cultural? Tudo seria então, mais ou menos homogêneo, mais ou menos flexível, mais ou menos
distinto. Os historiadores culturais não resolverão os problemas, mas podem permitir pensa-se
nessas questões mais lucidamente e criar aproximação das pessoas, abrindo vias de compreensão
entre elas, como disse Gilberto Freyre.
Observação pessoal: o uso do termo hibridismo de Néstor García Canclini e circularidade
cultural de Carlo Ginzbrug sem dizer de quem são.


Burke Peter, O que é História Cultural? Trad. Sergio Goes de Paula 2ª ed. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editora. 2008.

















RESUMO DE LIVROS - HISTÓRIA - BITTENCOURT, Circe (org.). O Saber Histórico na Sala de Aula

BITTENCOURT, Circe (org.). O Saber Histórico na Sala de Aula. Coleção Repensando o Ensino. Editora Contexto (editora Pinsky ltda.) São Paulo.

Formação do professor de Historia e o Cotidiano da Sala de Aula
Maria Auxiliadora Schmidt

A formação de História engloba ainda áreas de Ciências Humanas, como Filosofia, Ciências Sociais, etc.em geral, começa e termina no curso de graduação. Formado, envolve-se co encargos familiares, não dispõe de tempo e nem de dinheiro par investir em sua qualificação profissional.
Sua imagem é marcada pela ambigüidade, ora sacerdote, ora profissional da ciência, parteiro da nação e da revolução. Sua identidade oscila entre a do professor difusor e transmissor de conhecimento e a do produtor de saberes e fazeres. Espera-se que ele seja o promotor da união entre a competência acadêmica (domínio de saberes) e a competência pedagógica (domínio da transmissão do saber), aliando competência, convicções e experiências de vida, estabelecendo uma comunicação com o aluno levando a ter intimidade com o passado ou presente, que receptam informações, conteúdos, currículo, livros e materiais didáticos, muitas vezes desinteressantes. Estes, os alunos manifestam insegurança e temor ante os instrumentos de poder que são submetidos: exames, julgamentos dos colegas e professores.
O professor de Historia preocupa-se em exteriorizar o que sabe, explicitando o seu pensamento e a sua emoção. Ao mesmo tempo, vive a insegurança em relação a juventude e a defasagem de sua formação e o aceleramento de novos estudos e pesquisas de conhecimento histórico.
As aulas, espetáculos cheio de vidas, a relação pedagógica é diferente das puramente afetivas, comporta uma dose igual de apego, admiração e desprendimento, com algo de estrito que pode ir até a frieza. Por outro lado, a relação não é, não deve resvalar para o duelo, ela é a essência, onde professor fornece a matéria para o raciocínio, ensina raciocinar, mas acima de tudo ensina que é possível raciocinar.
O professor de historia pode ensinar a saber-fazer, lançar germes do histórico, captar e valorizar diversidade, levantar problemas e reintegrá-los num conjunto de outros problemas procurando transformar temas em problemáticas, dando condições para que o aluno possa participar do processo do fazer, do construir a História.
O conhecimento do professor pode oferecer a seu aluno a apropriação de conhecimentos, através de um esforço e de atividades que edificou esse conhecimento.
A sala de aula é uma espaço onde se transmite informações e onde interlocutores constroem sentidos impregnando tensões, relação teoria e pratica, ensino e pesquisa, evidencia dilaceramentos da profissão de professor e embates da relação pedagógica.

O fazer histórico e o fazer pedagógico

A transposição didática designa processo de transformação cientifica, didáticas sociais, que afeta os objetos de conhecimento até a tradução ao campo escolar transformando o saber cientifico em saber de ensinar, um processo de criação, implica, ainda, apontar uma certa ordem de questões, como diferenciar esta pratica de outras. Para isto requer conhecer os conceitos de ações das atividades didáticas.
Método na didática significa meios coclocados em pratica, são eles por repetição, por descobrimento, etnográficos, descritivos, de resolução de problemas, estudos de caso, de investigação, entre outros. É muito mais amplo do que técnica. Técnica é instrumento ou ferramenta útil para o processo, um recurso didático, como o uso de filme no videocassete. Recursos são materiais didáticos; estratégicas são formas de se organizar, o saber didático através de meios como o trabalho em grupo, aulas expositivas, etc. todos eles são ações necessárias as atividades didáticas.
Em relação a transposição didática, o objetivo é articular o conhecimento histórico ensinado de forma que dê ao aluno condições de participar do processo do fazer, do construir a História, possibilitando uma desnaturalização de uma visão critica do passado que está presente em nossas vidas. Pressupõe que se trabalhe a compreensão e a explicação histórica, destacando-se a problematização, o ensino e a construção de conceitos, analise causal, contexto temporal e o privilegio da exploração do documento histórico.
A problematização histórica trás possibilidades e questionamentos acerca de um objeto de estudo. Isso traz aos educandos uma atitude ativa na condução do saber e na resolução dos problemas de aprendizagem.
A analise causal possibilita aos alunos compreensão de que os acontecimentos históricos envolvem relações de pessoas e características diferentes, quando ifneren em sua realização. É preciso buscar explicação na multiplicidade, pluralidade e no encadeamento de causas, sem a preocupação com a determinação finalista de causa-acontecimento-conseqüência, levando o educando a compreender mudanças e permanências, continuidades e descontinuidades, bem como complexas inter-relações que interferem na compreensão dos processos de mudança social.
O procedimento histórico comporta a preocupação com a construção, a historicidade dos conceitos e a contextualização temporal. O passado está incorporado aos nossos conceitos e nos dá um conteúdo concreto, e só pode ser reconstruído em função das questões colocadas no presente, manipulando características essenciais do tempo: sucessão, duração simultaneidade. Todo conteúdo é criado, datado, e tem sua história.
Tradicionalmente, o uso de fontes e documentos tem destacado, exemplificado, descrito e tomado inteligível o que o professor fala. A partir das renovações teórico-metodológicas, o uso escolar do documento passou a estimular a observação do aluno, ajudando o a refletir, passando a analisá-lo, observá-lo e descrevendo-o, introduzindo assim o método histórico, desenvolvendo o espírito crítico, reduzindo a intervenção do professor, diminuindo a distância entre história que se ensina e a história que se escreve. Ainda diferenciando fontes ou documentos com a finalidade de transmitir conteúdos do saber disciplinar como textos e filmes, de documentos com finalidades didáticas como suportes informativos, descritivos, analíticos ou sintéticos, com a intenção de comunicar elementos do saber disciplinar.
A sociedade contemporânea produziu um aumento substancial de informações e de tecnologias que ocorre paralelamente um aumento entre os que sabem e os que não sabem articulá-las pensá-las e refleti-las. Professores tem tido acesso a um conjunto de meios diversificados. A relação da escola com estas novas tecnologias tem sido contraditória. Por um lado, quanto acolhida por educadores as inovações tecnológicas tem sido usadas como técnicas de ensino, estratégias para preencher ausência do professor ou como recursos para tornar a aula menos enfadonha. Trata-se de adequações superficiais, já que a inovação não é um produto, e sim um processo, atitude, uma maneira de ser e estar na educação.
A tecnologia interfere no mundo da arte, das ciências, da comunicação e do ensino, deve-se então refletir e retomar a sua interação com os currículos e com a pratica pedagógica em sua totalidade, levar transformações nos programas de formação de professores e produzir efeitos no processo de aprendizagem dos alunos.
O desafio na pratica de sala de aula é que a educação histórica, hoje deve levar os educanado a adquirir capacidade de analisar, inferir e interpretar acerca da sociedade atual, olhar pra si e ao redor com olhos históricos, resgatando o conjunto de lutas, anseios, frustrações, sonhos e a vida cotidiana de cada um, no presente e no passado.

BLOCH, Marc Leopold Benjamin. Apologia da História ou O ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
Ligiane de Meira[*]
Apologia da História ou O Ofício do Historiador
Marc Bloch nasceu na França no ano de 1886 e morreu em 1944 fuzilado pelos nazistas durante a II Guerra Mundial, tendo participado ativamente da Primeira Guerra Mundial entre 1914 e 1918. Juntamente com Lucien Febvre fundou a Revista dos Annales iniciando os estudos acerca da História das Mentalidades, problematizando os seus acontecimentos, não se detendo apenas aos fatos. Além do livro em questão, escreveu outras obras célebres como Os Reis Taumaturgos e A sociedade Feudal.
Seu último livro Apologia da História ou O Ofício do Historiadorescrito em cativeiro e inacabado tornou-se uma leitura obrigatória aos historiadores por condensar as primeiras idéias da Escola dos Annales. O livro é disposto em cinco capítulos, sendo o último inacabado. Em suma o livro busca desconstruir a escola historiográfica anterior – os Metódicos, que chamam de positivistas – criando um novo método para os historiadores. Buscando assim a interdisciplinaridade, e um diálogo com as Ciências Sociais, não se atendo apenas aos fatos, mas sim a problematização, aliando a outras áreas do conhecimento para se chegar a um saber racional e cientifico – nota-se aqui que Bloch, assim como historiadores anteriores (metódicos) não renunciou a História quanto ciência.
Num primeiro momento, Capítulo I: A história, os homens e o tempo, traz em seu título o que o autor pretende representar: o homem quanto sujeito da sua história. Não mais uma História atrelada apenas aos fatos, às datas, aos relatos. Busca-se a partir de então, uma história que consiga compreender as relações que se deram através dos fatos, suas problematizações e seu contextos históricos. Indicando dessa maneira que o seu objeto não era o passado, mas o homem, mais precisamente os homens no tempo. Porém nunca se esquecendo de aliar o passado com presente, uma vez que as indagações do presente são o que fazem o historiador voltar-se para o passado.

No Capítulo II: A observação histórica, busca-se através da observação histórica os testemunhos e sua transmissão. O historiador, na sua leitura, não deve se atrelar apenas aos documentos escritos, mas deve trabalhar também os testemunhos não escritos, em particular os da arqueologia. Deixando de ser obcecado pelo relato, sabendo que não vai conseguir saber e conhecer tudo a respeito do passado, construindo assim um conhecimento pautado em vestígios – uma vez que o historiador não têm contato direto com seu objeto de estudo –, reconstruindo esse passado, apoiado-se não apenas na História, mas aberto a outras possibilidades que as outras ciências podem ceder. O autor indica que o passado estará sempre em processo e progresso, mudando muitas vezes seu modo de compreende-lo, sendo que poderá ser escrito de maneira diferenciada de acordo com a visão de cada historiador e/ou do leitor.
Em A Crítica, capitulo III, nesse capitulo Bloch desenvolve uma “tentativa de uma lógica do método critico”, para que a História pudesse compor o rol das ciências, deixando transparecer que a História para Bloch realmente é uma ciência e que precisava ser reconhecida como ciência igualmente como as outras – como ciências naturais, por exemplo, mesmo que seus antecessores tenham tentado fazer isso, mas ainda considerando a História como inferior –, Marc Bloch tenta justificar a História repassando um método próprio. Com isso o historiador mostrará ao homem um novo caminho “rumo à verdade e, por conseguinte, à justiça”
No capitulo IV: A Análise Histórica o autor usa como exemplo o juiz e o historiador, discutindo se a história deveria julgar ou compreender. Toma como defesa que o historiador deve compreender e não julgar, não é trabalho do historiador julgar outras civilizações, por exemplo, e sim de compreendê-las. Revelando que uma sociedade não é melhor nem pior que a outra, e revelando que é por meio da análise história que se inicia realmente o trabalho do historiador, sempre atento para os julgamentos. Também defende a idéia de que o historiador é quem faz o seu recorte histórico e, consequentemente “escolhe e peneira” o seu ponto de estudo, indicando que não é obrigatório o saber de todo o conhecimento do passado, uma vez que a noção de fonte é ampliada.
No último capítulo, sem título e inacabado, foram analisadas as causas dos fatos históricos, e que tais causas não são postuladas e sim buscadas, não tendo como pré-determinadas – aqui fazendo uma crítica ao positivismo –, que um acontecimento é atrelado ao outro e que as produções do próprio historiador terá consequências e influências.
O livro é utilizado até os dias de hoje como leitura obrigatória no ensino de história, principalmente quando se trata de teoria, por informar como se estabeleceu as primeiras idéias da Escola dos Annales. Assim nota-se a influência historiográfica atualmente – afinal ainda escrevemos como Annales – e os que colaboraram para a historiografia, sendo fundamental para o entendimento da História. Seguindo esse pensamento não se pode desvincular que uma Escola influenciou a outra.
No decorrer da leitura, Bloch reafirma que não consegue negar seus “pais” (metódicos), o livro em várias partes transparece como um manual para o historiador, assim como Langlois e Seignobos escreveram o seu.
Bloch tenta escrever como um historiador filho do seu tempo, século XX, deve proceder com as idéias repassadas, não mais buscando a verdade absoluta, uma vez que até mesmo as disciplinas ditas exatas como a física é revolucionada com as teorias de Einstein sobre a relatividade. E principalmente a angústia que traz dentro de si do forte nacionalismo construído pelos metódicos, do conceito de nação que repassaram, que construiu as idéias de que uma nação é superior a outra, como o de Hitler que queria formar a sociedade ariana superior a outras sociedades.
O pensamento de Bloch tanto em Apologia da História quanto em seus outros livros visava compreender, problematizar, contextualizar, etc., não apenas estudando os fatos isolados, mas também entendendo-os, iniciando primeiramente com a História das Mentalidades, abrindo as possibilidades de análises, de fontes, de escrita, dando certa liberdade ao historiador para não se ater apenas aos documentos oficiais e seguir etapas metódicas para a construção da História.

quarta-feira, 25 de maio de 2011